Ao pensar na Amazônia, uma enxurrada de imagens nos invade: florestas de um verde profundo e exuberante, pássaros de plumagens impossíveis, frutos e flores que parecem inventados — tudo isso fazendo da floresta o bioma mais biodiverso já conhecido.
Mas quatro cofundadores enxergaram na floresta uma resposta inesperada para o desequilíbrio entre natureza e indústria — e ela veio de um organismo que quase ninguém associa à Amazônia: as microalgas. Às margens do Rio Negro, em uma conversa sobre os impactos do agronegócio e da pecuária, surgiu a ideia que daria origem à Aqua Viridi, hoje uma das startups aceleradas pelo programa BNDES Garagem.
A vida brota da água
“Eu tinha que devolver para a Amazônia o que a Amazônia me deu”. Foi assim que Fabiane Almeida, uma das co-fundadoras e CEO da Aqua Viridi, descreve a motivação para o começo da sua jornada empreendedora. Nascida em Minas Gerais, mas moradora de Manaus há 20 anos, ela conta que sua paixão pela Amazônia surgiu logo cedo: na sexta série, quando apresentou um trabalho sobre o bioma. Apaixonada pelo que aprendeu, foi perguntar para a professora o que precisava estudar para poder trabalhar e viver na Amazônia. Anos depois, com mestrado e doutorado financiados por bolsas voltadas ao estudo da floresta, Fabiane uniu-se aos sócios Renan Gomes (COO), Raize Mendes (CTO) e Daniel Duarte (CMO) para tirar a ciência do laboratório e levá-la ao mercado. O desafio é urgente: o bioma sofre pressões crescentes, desde queimadas até a contaminação de rios. Diante disso, a Aqua Viridi oferece biotecnologia comprovada para transformar resíduos em recursos e apoiar o crescimento sustentável de maneira lucrativa, rastreável e escalável.

Pequenas e poderosas
As microalgas são organismos unicelulares que conseguem transformar luz solar, água e nutrientes em uma biomassa rica em proteínas, vitaminas e minerais. A partir dessa matéria prima, a Aqua Viridi desenvolveu um portfólio estratégico de produtos. A startup oferece a farinha de microalgas para alimentação animal; bioestimulantes e biofertilizantes para processos agrícolas; e também a ficocianina, um pigmento para a indústria têxtil.
Cada um desses produtos, além de sanar demandas de mercado, também geram impactos ambientais positivos.. A farinha de microalgas, por exemplo, diminui o volume necessário de soja para o desenvolvimento de ração animal – para 3% de inserção da farinha, é possível retirar até 15% de soja e ainda colher benefícios nutricionais. Dessa maneira, o produto ajuda a mitigar a pressão em cima do desenvolvimento de novas áreas de cultivo. Já os biofertilizantes e bioestimulantes possuem uma ação ainda mais clara: são um substituto direto para agrotóxicos em plantações.
Para chegar a esses produtos através de um processo sustentável, a Aqua Viridi desenvolveu tecnologias 100% brasileiras. “Desenvolvemos um processo que conversa com a floresta, que está envolvido profundamente com a dinâmica da floresta em si”, explica Fabiane, ressaltando que duas pesquisas de mestrado e três teses de doutorado estiveram envolvidas na evolução dessa tecnologia.

A startup já colhe os frutos do trabalho. São mais de 5 mil pessoas impactadas direta e indiretamente na Amazônia, Além disso, foram mais de 25 estudantes e técnicos formados em oficinas e treinamentos sobre microalgas, bioeconomia e sustentabilidade.
A Aqua Viridi também foi reconhecida com a participação diversos programas, como o APEX-SEBRAE (Catalisa ICT), Web Summit Lisboa (2024/2025), Women in Ocean Food (Premiação de melhor pitch), 1º Congresso Internacional de Biotecnologia com Algas (Lisboa), Brainforest Venture Program (Suíça, Top 5 global), Prêmio Bayer Mulheres Empreendedoras (Top 30 mundial) e Academic Industry Training (AIT, Swissnex & CNPq, 2º lugar em pitch).
A aceleração
A transição do laboratório para o mercado não é um caminho simples. Na evolução da Aqua Viridi, surgiram dúvidas fundamentais – desde quais eram os melhores produtos a serem desenvolvidos, até a estruturação de uma estratégia comercial sólida. E na jornada em direção a esses objetivos, a participação da Aqua Viridi no BNDES Garagem se mostrou um estágio crucial.
Refletindo sobre a participação da Aqua Viridi no módulo de Tração da Fase 01 do Projeto, Fabiane considera o envolvimento um divisor de águas na vida da empresa. “Esses meses foram transformadores”, conta a CEO. “O alto nível das pessoas que participaram do projeto foi fantástico”. A partir de mentorias “cirúrgicas”, conversas com os gestores, e trocas com o ecossistema de impacto, a equipe ganhou clareza para focar nos produtos de maior potencial econômico e ambiental. Mais do que ajustes técnicos, o programa estimulou uma mudança de postura necessária para uma empresa que deixa a fase de validação para encarar o desafio da tração.
O que vem a seguir
Os próximos passos da Aqua Viridi – a empresa está construindo a primeira biorrefinaria de microalgas da Amazônia, com suporte de Inteligência Artificial – sensores irão monitorar os tanques em tempo real, e através de um sistema de IA, irão garantir um padrão de qualidade biotecnológica rigoroso e o aproveitamento total dos recursos, inclusive da água utilizada no processo. Para além disso, a empresa visa escalar a capacidade produtiva de 5 mil litros para 100 mil litros nos próximos anos.