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Do BNDES Garagem ao Vale do Silício

Em abril de 2026, São Francisco recebeu mais uma edição do Brazil at Silicon Valley (BSV) — conferência anual, restrita a convidados, que aproxima lideranças brasileiras do ecossistema do Vale do Silício. Sob o tema Beyond Human Scale (Além da Escala Humana), o evento reuniu mais de 850 participantes, entre fundadores, investidores, executivos e representantes de governos e academia. A edição contou com o apoio do Cubo Itaú e do Google for Startups como patrocinadores, e uma programação à altura: do palco, nomes como o apresentador e empreendedor Luciano Huck e a CEO da Petlove Talita Lacerda dividiram espaço com referências internacionais como Mike Krieger, o brasileiro cofundador do Instagram e atual CPO da Anthropic, e Wei Xiao, diretora de Developer Relations da NVIDIA.

Entre os presentes, estavam empreendedores que já foram acelerados pelo BNDES Garagem e hoje fazem parte da Comunidade, e que levaram ao encontro não apenas suas soluções, mas a percepção de que o Brasil tem talento, urgência e capacidade de execução para ocupar um papel relevante no debate global sobre tecnologia.

Para essas startups, o encontro teve um significado que vai além do networking. Na visão de Lucas Arthur de Souza, cofundador e Diretor de Operações da Telavita, eventos como o BSV cumprem um papel estruturante: “Ajudam a mudar a forma como a gente enxerga inovação no Brasil. Durante muito tempo, o mercado funcionou olhando tendências de forma isolada e muito americanizada. Hoje isso não se sustenta mais.” A Dra. Viviane Alencar, médica oncologista, fundadora e CEO da Oncodata, que participou do BSV pela terceira vez, reforça essa perspectiva: para ela, o evento é um catalisador porque conecta a capacidade de execução do Brasil com tecnologia, capital e ideias que estão moldando o futuro em escala global. 

Para Pettrus Nascimento, CEO da Prol Educa — edtech que gera oportunidades educacionais para estudantes de baixa renda. —, o BSV tem ainda uma dimensão adicional: “Eventos como esse são fundamentais porque definem quem está na mesa onde o futuro está sendo construído.” Pettrus esteve no encontro através da Do Silêncio ao Silício, iniciativa que leva empreendedores negros e periféricos para imersões no Vale do Silício, abrindo espaços historicamente pouco acessíveis a essa parcela do ecossistema de inovação. 

Telavita: escala e leitura de mercado

Lucas compartilhou um pouco da sua perspectiva sobre o evento. “A nossa expectativa não era apenas fazer networking e trocar aprendizados, mas validar a nossa tese de produto e de mercado em um contexto global”, conta. A Telavita trabalha para transformar a saúde mental em uma camada integrada do sistema de cuidado, com acompanhamento contínuo, uso de dados e foco em desfechos mensuráveis — uma abordagem que combina eficiência e democratização do acesso.

No encontro, conversas com investidores e operadores do sistema de saúde reforçaram que a startup está na direção certa. Mas o que mais ficou foi a provocação estratégica que o ambiente proporcionou. Para Lucas, eventos como o BSV aceleram a capacidade de leitura do presente de quem está conseguindo escala nas soluções — o que hoje é muito mais relevante do que tentar prever o futuro. 

Oncodata: soluções ambiciosas e brasileiras

Para a Dra. Viviane cada edição do BSV reforça a convicção de que o caminho não é acompanhar tendências externas, mas desenvolver soluções ambiciosas a partir da própria realidade brasileira. “Um ponto que o BSV reforçou muito bem foi justamente a importância de construir no Brasil com visão global”, diz ela.

A programação da conferência, com seus painéis sobre o papel ético e social da IA, tocou diretamente no que a Oncodata pratica: o desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial para auxílio ao diagnóstico oncológico. Para Viviane, startups de impacto têm um papel essencial em ambientes como esse — “ajudam a qualificar o debate, trazendo perguntas mais importantes para a mesa.”

Prol Educa: inovação e diversidade

Para Pettrus, participar do BSV não foi só sobre realizar negócios, mas sobre representatividade e construção de novos referenciais. “A inovação precisa refletir a diversidade do país que ela pretende transformar”, afirma. A Prol Educa parte da premissa de que educação é infraestrutura social: um sistema que conecta atores diferentes — famílias, escolas, empresas e poder público — para ampliar o acesso à educação de qualidade em escala nacional e internacional. No BSV, a startup abriu diálogos com potenciais parceiros e investidores, reforçando sua tese de que modelos sustentáveis podem ser construídos justamente onde as desigualdades estruturais são mais visíveis.

O Brasil no centro do debate

Mesmo separados por contextos e mercados diferentes, os três empreendedores compartilham uma leitura comum sobre o Brasil: o país não carece de talento, mas de coordenação entre capital, regulação e estratégia de longo prazo. Como afirma Lucas, “o Brasil é um país com problemas complexos e muita ineficiência em alguns mercados — e isso, na prática, é um grande motor de inovação.”  Para Pettrus, o que falta para o Brasil se tornar uma potência global em soluções de pacto é justamente a democratização do acesso ao próprio ecossistema, seja a nível de capital, oportunidades e representatividade. 

É exatamente nessa construção que o BNDES Garagem atua: criando as condições para que negócios de impacto cresçam, se conectem e mostrem que escala e propósito não são objetivos excludentes. O BSV 2026 foi mais um espaço onde essa narrativa ganhou voz, e onde empreendedores brasileiros de impacto ocuparam o mesmo palco que as mentes mais influentes do ecossistema global. O programa segue apoiando quem continua a construí-la, de dentro do Brasil para o mundo.

Confiras as entrevistas na íntegra

1) Qual a importância de um evento como o BSV para o ecossistema de inovação?

Lucas Arthur: Eventos como o BSV são importantes porque ajudam a mudar a forma como a gente enxerga inovação no Brasil. Durante muito tempo, o mercado funcionou olhando tendências de forma isolada e muito americanizada. Hoje isso não se sustenta mais. O que vemos é uma convergência de forças acontecendo ao mesmo tempo: tecnologia, regulação, comportamento, capital. E o valor de um evento como o BSV está justamente em conectar esses pontos com como estamos percebendo e aplicando isso do Brasil.

Pra mim, ele acelera a capacidade de leitura do presente de quem realmente está conseguindo escala nas soluções, que hoje é muito mais relevante do que tentar prever o futuro. Além disso, ele concentra, como nunca vi antes, um número de builders e stakeholders do mercado de inovação de altíssima qualidade. Ou seja, gera conexão, compartilha tendências e fomenta a comunidade entre si.

Viviane Alencar: Vejo o BSV como um catalisador do ecossistema de inovação, porque ele conecta o talento e a capacidade de execução do Brasil com tecnologia, capital e ideias que estão moldando o futuro em escala global. É um espaço de troca altamente qualificada, que reúne empreendedores, investidores, pesquisadores e lideranças de diferentes setores do Brasil e do Vale do Silício em um ambiente muito fértil para conexões e conversas relevantes. 

A programação também tem um papel importante nisso: as palestras trazem discussões de alto nível com stakeholders de instituições que estão na fronteira da inovação, de startups brasileiras a investidores e empresas globais. Para quem está construindo empresas em setores estratégicos e desafiadores, como healthtech e IA, esse tipo de ambiente ajuda a ampliar visão, refinar estratégia e fortalecer a convicção sobre o impacto que queremos gerar.

Pettrus Nascimento: Eventos como o BSV são fundamentais porque funcionam como pontos de convergência entre capital, ideias e oportunidades reais. Mas, além disso, eles têm um papel ainda mais importante: definir quem está na mesa onde o futuro está sendo construído.

Para mim, enquanto empreendedor negro, estar nesse espaço não é só sobre negócio — é sobre representatividade, acesso e construção de novos referenciais. A inovação precisa refletir a diversidade do país que ela pretende transformar.

E nesse sentido, foi essencial estar lá através da comunidade Do Silêncio ao Silício, que vem justamente criando pontes para que mais empreendedores negros ocupem esses espaços de decisão e protagonismo dentro do ecossistema.

2) Quais eram as expectativas para o encontro? Como ele foi do ponto de vista de negócios e conexões?

Lucas Arthur: A nossa expectativa não era apenas fazer networking e trocar aprendizados, mas validar a nossa tese de produto e de mercado em um contexto global. A gente queria entender como modelos de cuidado em saúde estão evoluindo, especialmente com o uso de dados e inteligência artificial, e como isso se conecta com o conceito de valor em saúde do Brasil. 

Do ponto de vista de resultado, foi um ambiente muito rico. Tivemos conversas com investidores, parceiros e outros operadores do sistema de saúde que reforçaram que estamos na direção certa. Mais do que volume de conexões, foi sobre qualidade e provocação estratégica.

Viviane Alencar: Foi a nossa terceira edição no BSV, então chegamos com expectativas muito positivas, tanto pela qualidade do evento quanto pela oportunidade de reencontrar pessoas com quem já vínhamos construindo relacionamento e, ao mesmo tempo, ampliar nossa rede com novas conexões. E, de fato, foi uma experiência excelente. É um evento intenso, no melhor sentido: além da programação principal, os side-events ao longo da semana criam um ambiente muito rico para conversas mais aprofundadas e conexões mais espontâneas. 

Para a Oncodata, foi especialmente interessante estar em um espaço que reúne lideranças, empreendedores e investidores muito qualificados, com uma presença particularmente forte do setor de saúde nesta edição.

Pettrus Nascimento: Nossa expectativa era gerar conexões estratégicas que acelerassem nossa capacidade de escala — tanto com o setor privado quanto com o público. O resultado foi muito positivo. Conseguimos abrir diálogos relevantes com potenciais parceiros, investidores e organizações interessadas em educação como ferramenta de impacto social.

Além disso, o evento reforçou algo importante: a Prol Educa não é só uma edtech — é uma infraestrutura de acesso à educação, com potencial de escala nacional e internacional.

3) Na sua visão, qual é o papel de startups de impacto dentro de um ambiente como esse? Existe algum diferencial ou narrativa que vocês pretendem levar?

Lucas Arthur: Acho que existe uma mudança importante aqui. Startups de impacto não podem mais se apoiar apenas na narrativa de propósito. Elas precisam mostrar que conseguem operar em escala e resolver problemas estruturais. No nosso caso, a narrativa é muito clara: transformar saúde mental em uma camada integrada do sistema de saúde, com acompanhamento contínuo, uso de dados e foco em desfecho. Com isso, aumentar eficiência e alcance, e assim de fato democratizar o acesso.

O diferencial não é só oferecer atendimento, mas organizar o cuidado de forma mais eficiente e mensurável para mais pessoas.

Viviane Alencar: Startups de impacto têm um papel essencial porque estão focadas na resolução de problemas urgentes e relevantes do ponto de vista social e ambiental. Levá-las para ambientes em que o futuro está sendo discutido, ao lado das pessoas certas, faz diferença em duas frentes: ajuda a qualificar o debate, trazendo perguntas mais importantes para a mesa, e também cria condições para que essas startups prosperem, ganhem visibilidade e construam conexões estratégicas. O próprio tema desta edição do BSV, Beyond Human Scale, reforçou essa perspectiva. Em diferentes painéis, surgiram reflexões muito relevantes sobre como a IA deve gerar valor para a sociedade, ser desenvolvida com ética e ampliar impacto de forma responsável.

Pettrus Nascimento: Startups de impacto têm o papel de tensionar o ecossistema — no melhor sentido. Elas trazem problemas reais para o centro da discussão e mostram que é possível construir modelos sustentáveis resolvendo desigualdades estruturais. No nosso caso, a narrativa é clara: educação como infraestrutura social. A gente constrói pontes entre famílias, escolas, empresas e governos para ampliar o acesso à educação de qualidade.

E tem um ponto importante: quando empreendedores negros ocupam esses espaços, eles trazem novas perspectivas sobre os problemas — porque vivem realidades que muitas vezes não estão representadas nas decisões. Isso gera inovação mais aderente, mais eficiente e mais justa.

4) Na sua percepção, como o Brasil se insere dentro do ambiente de inovação e tecnologia hoje, e onde ele poderia estar dados os devidos incentivos?

Lucas Arthur: O Brasil tem uma característica muito interessante: ele é um país com problemas complexos e muita ineficiência em alguns mercados e isso, na prática, é um grande motor de inovação. Hoje, a gente ainda está muito forte em adaptação de modelos que vêm de fora, mas menos presente na criação de soluções que possam ser exportadas. E acredito que o principal desafio não é falta de talento, é falta de coordenação entre capital, regulação e estratégia de longo prazo. E claro, acesso a capital.

Se isso evoluir, o Brasil tem potencial para liderar principalmente em áreas como saúde digital, onde a complexidade do sistema exige soluções mais sofisticadas e integradas.

Viviane Alencar: O Brasil já mostrou que tem talento, capacidade de execução e problemas relevantes o suficiente para gerar inovação de classe mundial. O que ainda falta não é potencial, mas um ambiente mais favorável para transformar esse potencial em escala, com mais capital, mais continuidade nos incentivos e melhores conexões entre pesquisa, empreendedorismo e mercado. 

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que já existem mecanismos muito relevantes nesse sentido, e que vêm sendo ampliados, como o PIPE FAPESP, que tem um papel fundamental no nascimento de startups de base tecnológica em estágios nos quais o capital de risco ainda é mais escasso – esse foi, inclusive, o contexto em que a própria Oncodata surgiu – além de instrumentos de fomento da FINEP e de outros programas voltados à resolução aplicada de problemas locais e ao desenvolvimento de inovação no país. 

Um ponto que o BSV reforçou muito bem foi justamente a importância de construir no Brasil com visão global: não como quem apenas acompanha tendências externas, mas como quem desenvolve soluções ambiciosas, competitivas e relevantes a partir da própria realidade. Com os incentivos certos, e com a continuidade e ampliação dos que já existem, acredito que o país pode ocupar um espaço muito mais central em tecnologia e inovação, especialmente em áreas como IA aplicada e deep tech.

Pettrus Nascimento: O Brasil tem um dos ecossistemas mais promissores do mundo, principalmente pela capacidade de resolver problemas complexos com criatividade. Mas ainda temos um desafio importante: democratizar o acesso ao próprio ecossistema — tanto em capital quanto em oportunidades.

Se conseguirmos ampliar o acesso — especialmente para empreendedores fora dos grandes centros e para grupos historicamente sub-representados — o Brasil pode se tornar uma potência global em soluções de impacto, principalmente em áreas como educação, inclusão financeira e govtech.