Novidades

Os enormes potenciais (e desafios) das mulheres empreendedoras no Brasil

O mês de março é sempre um momento para celebrar as conquistas históricas das mulheres, mas também um convite a analisarmos os desafios que ainda restam até alcançarmos a equidade e segurança que precisamos enquanto sociedade. Dentro do universo do empreendedorismo e do impacto, os dados sobre a presença das mulheres no mercado de trabalho contam uma história de avanço – e também do quanto ainda precisamos crescer.

Hoje, as mulheres donas de negócios somam um recorde histórico – cerca de 10,4 milhões empreendem no país — um crescimento de 42% entre 2012 e 2024, de acordo com dados da PNAD Contínua. O número, no entanto, ainda está longe de ser o ideal. O mesmo estudo traz dados que comprovam uma enorme discrepância entre os gêneros. Enquanto 51,7% da população brasileira em idade ativa é composta por mulheres, somente 34,1% dos negócios são empreendidos por elas, e a taxa de empreendedorismo entre os homens é mais do que o dobro da taxa entre as mulheres.

Barreiras sistêmicas

E quando analisamos a rentabilidade dos negócios liderados por mulheres, esbarramos em desafios estruturais profundos. O Panorama do Empreendedorismo Feminino no Brasil afirma que 95% desses empreendimentos nunca ultrapassam a barreira dos seis dígitos de rendimentos. A discrepância continua na remuneração: as empreendedoras ganham, em média, 24,4% a menos que os homens na mesma posição, mesmo possuindo maior escolaridade.

“A disparidade não é acidental; é resultado de uma estrutura que se retroalimenta e se beneficia dessa diferença”, conta Leide Laje, CEO e fundadora da Laje ESG, consultoria especializada em operações de sustentabilidade para festivais, eventos corporativos e esportivos e acelerada pelo BNDES Garagem no módulo de Criação do Ciclo 02, na edição de 2025. 

Outro negócio já acelerado pelo BNDES Garagem, esse na edição de 2023 — e agora membro da Comunidade BNDES Garagem — é a Todas Group, empresa que conecta educação executiva, mentoria e desenvolvimento de lideranças para impulsionar o crescimento profissional de mulheres e ampliar sua presença em posições de impacto nas organizações. Sua CEO e cofundadora, Simone Harumi Murata, faz uma análise das barreiras que as mulheres enfrentam ao empreender.

“As principais barreiras que identificamos, enquanto empresa focada na aceleração de carreiras femininas, são o acesso seletivo a redes de influência, a gestão da dupla ou tripla jornada com gargalo de performance e um gap na percepção de risco”. Sobre os entraves na hora de forjar essas conexões, Simone relata a dificuldade de as lideranças femininas entrarem em rodadas de investimento e parcerias de alto nível. “O crescimento de um negócio depende de capital social e, muitas vezes, os ecossistemas de decisão ainda operam em ciclos muito fechados”. De acordo com levantamento feito pela Startups.com.br, no Brasil, as startups fundadas por mulheres recebem menos de 12% dos investimentos de venture capital.

A dupla e tripla jornada

Outro obstáculo estrutural que as empreendedoras enfrentam é a demanda simultânea na vida doméstica e de negócios. Yollanda Ferreira, empreendedora e CEO da SolNano, mais um negócio acelerado pelo BNDES Garagem na edição de 2025, ecoa essa percepção. “Na sociedade ainda temos a cultura de que a responsabilidade com o cuidado parental, com filhos, pais, marido e com a casa, é da mulher”. 

A sobrecarga de responsabilidades extralaborais ainda recai majoritariamente sobre as mulheres, o que consome um ativo precioso e necessário para empreender: o tempo para formar a visão estratégica e o networking focado em expandir seu próprio negócio. Os dados corroboram essa realidade: 52,3% das mulheres donas de negócios são também chefes de família

“As mulheres absorvem desproporcionalmente uma carga doméstica e de cuidado parental que reduz o tempo e o potencial de entrega, principalmente falando no lugar de empreendedora, onde o tempo, a dedicação e a entrega são substanciais para o crescimento do negócio”, relata Leide.

Desafios de capital e representatividade

O terceiro aspecto levantado por Simone — a disparidade na percepção de líderes mulheres — já foi comprovado em diversos estudos, como o artigo publicado na Harvard Business Review, liderado por Dana Kanze, professora da London Business School e PhD pela Columbia Business School. Essa pesquisa demonstra vieses de gênero nas decisões de alocação de recursos tomadas por fundos na hora de decidir onde investir, inclusive impactando as perguntas que são feitas durante o processo.

No Brasil, esse gap é evidente em diversas frentes. Um estudo feito pelo Sebrae a partir dos dados do Banco Central demonstrou que as taxas de juros praticadas em financiamentos voltados a pequenos negócios de mulheres empreendedoras são mais altas do que as de empréstimos feitos a homens. Simone complementa: “A percepção do mercado por vezes avalia o potencial de liderança feminina com critérios de cautela excessiva, o que impacta diretamente a velocidade de escala dos negócios liderados por mulheres.”

Ou seja, essa percepção não é apenas um componente simbólico na discussão de empreendedorismo e gênero; ela influencia diretamente o ecossistema e até o imaginário do que significa ser uma mulher, líder e empreendedora. “Temos sempre que provar que entendemos de determinados assuntos tanto quanto os homens, provar nossa competência”, conta Yollanda.

A potência do empreendedorismo feminino

Apesar disso, os números comprovam que a presença de mulheres tanto na equipe quanto na liderança não é apenas uma questão de equidade, mas sim de boas práticas para os negócios. Segundo a consultoria McKinsey, empresas lideradas por mulheres apresentam um crescimento 21% superior ao de organizações comandadas apenas por homens. Dados do mercado de franquias apontam que aquelas administradas por mulheres faturam 32% a mais, e dados da Hubla mostram que esses negócios registram um crescimento de faturamento e ticket médio três vezes maior.



Leide Laje explica esses resultados de forma clara: “Quando a liderança é diversa, as perguntas que chegam na mesa são diferentes, os olhares e os ângulos de vivência também, e isso resulta em soluções diferentes”. Simone, por sua vez, conta que a decisão de empreender com impacto surgiu justamente a partir dessas observações. “A nossa missão nasce exatamente dessa consciência. Trabalhamos para acelerar o desenvolvimento de mulheres porque sabemos que, quando elas chegam aos espaços de liderança, não apenas transformam suas próprias trajetórias, mas também elevam o nível de resultado, inovação e cuidado dentro das organizações.”

Interseccionalidade e gênero

O foco na diversidade de gênero exige também um olhar interseccional — é impossível abranger os desafios do empreendedorismo feminino no Brasil sem olhar para recortes raciais e regionais. As mulheres empreendedoras estão divididas de forma quase igualitária entre brancas (5 milhões) e negras (4,7 milhões). Contudo, 50% das empresárias negras abrem negócios por necessidade, contra 35% das brancas.

Essa vulnerabilidade se reflete na formalização e na renda. De acordo com os dados da PNAD Contínua (2021), enquanto 41% das empreendedoras brancas têm negócios formalizados, apenas 24% das mulheres negras estão na mesma situação — o que as afasta do acesso a crédito e da cobertura previdenciária. A diferença de rendimento também é gritante: empreendedoras negras faturam, em média, 32% a menos que as brancas. 

A jornada não terminou

A jornada de empreendedorismo feminino é um desafio transversal, que atravessa governo, sociedade civil e a iniciativa privada. Não se trata apenas de corrigir uma dívida histórica, mas de impulsionar a economia e construir soluções mais inteligentes — a presença feminina em posições de decisão é uma estratégia de performance sustentável. Efetivamente, isso pode se refletir em diversas práticas, como políticas corporativas, ações afirmativas, e também, como traz Simone, é necessário que investidores e fundos incorporem métricas de lideranças femininas. 

É com base nesse cenário que o BNDES Garagem segue com suas políticas de inclusão, reconhecendo a diversidade e inclusão como um pilar estratégico para o Programa — não só no recorte de gênero, mas também racial e regional. “É uma oportunidade que nos dá voz como mulheres em um ambiente predominantemente masculino”, conta Yollanda. 

Simone faz um bom resumo da sua jornada no Programa: “Além de nos ajudar a estruturar nosso próprio crescimento, todas nós, mulheres que participamos do BNDES Garagem, continuamos vibrando umas pelas outras.”